Escrever sobre a consciência negra é um ato de coragem. Enquanto olho a tela branca do computador, penso que esse é um texto que precisa ser honesto. Ele tem que respirar e transpirar sentimentos pulsantes e cheios de energia – e, diferente de outros escritos que temos no blog da Gasp, o artigo de hoje é mais intimista. Com ele, queremos te convidar a refletir e a compartilhar os seus aprendizados com a gente.

Reconexão Com as Raízes

Desde que saí do Pará e cheguei no Paraná, uns sete anos atrás, eu observo como Curitiba e outras cidades do Sul do país tem uma convivência diferente com negros, índios e pardos (seja lá o que significa ser pardo!). E como seria diferente a percepção de quem é neta de caboclos criados na beira do rio à base do peixe assado com açaí?

Essa sensação constante de desconexão com a essência alimentou o pensamento crítico e o desejo cada vez maior de de me reaproximar de minhas raízes. Aos poucos, percebi que não era só eu quem se sentia assim por aqui: Luan Carfran, um dos artistas e sócios fundadores da Gasp, também passou por esse processo de construção e desconstrução de identidade. Juntos, sentíamos uma inquietação desgraçada com relação ao assunto.

Recentemente Luan foi convidado para participar do clipe do trio Tuyo, onde o tema era sobre a estética e beleza negra. Dançarino nato, topou o convite na hora. Ao se reunir com o pessoal do clipe logo no primeiro ensaio, pensou consigo mesmo “Por que é preciso falar de diversidade para encontrar mais de quatro negros no mesmo local?”.

A cada encontro com os dançarinos o designer voltava com mais questionamentos pro Atelier da Gasp. Até que um belo dia, em meio a um debate caloroso, decidimos: vamos nos posicionar com relação a isso. Com um sócio negro, uma social media nortista e toda essa vontade que temos de representar as pessoas como elas são, nada mais justo do que celebrar a consciência negra com beleza e criatividade.

De cabeça erguida e peito cheio de coragem, agora a gente só precisava se organizar. Definimos como local a Fundação Cultural de Curitiba, já que estaríamos no bazar Manoo e seria possível aproveitar de sua estrutura e segurança para realizar o photoshoot em paz. A ideia de fazer um ensaio negro em meio ao evento nos deixou tão ouriçados que quase desistimos. Ainda bem que podemos contar com os amigos pra nos dar forças nessas horas de dúvida, não é mesmo?

É Preciso Ter Coragem

Passados os perrengues, convidamos dois amigos que fizemos durante as gravações do clipe para ser nossos modelos. Adrielly e Lucas gostaram da proposta e toparam entrar com a gente nessa empreitada, orgulhosos e crespos de si mesmos. Sobre o preconceito e aceitação, eles contam pra gente:

Adrielly: “Me entendi como negra há 3 anos, quando parei de alisar o cabelo e entendi que a leitura que me fazem com cabelo natural é diferente da leitura que faziam quando ele estava liso. Alisá-lo foi uma máscara para conseguir a aceitação das pessoas ao meu redor, mas nunca foi a minha. Já odiei minha cor, já odiei meu cabelo, meu nariz e tudo que me levava à negritude, pois é isso que o racismo estrutural faz: ele te sufoca.

   Depois de muitos tempo rejeitando a minha identidade, hoje tenho orgulho do que sou e do que me permiti ser. Essa aceitação me leva à liberdade de ser quem eu sou sem ter medo do que ainda vou ser ou já fui.”

Lucas: “Sempre fui muito resolvido quanto à minha cor, mas de uns 2 anos pra cá isso ficou mais forte, acho que por conhecer mais galera desse rolê e trocar experiências. Pra muitas pessoas, às vezes, é difícil se aceitar e entendo completamente, mas hoje temos mais representatividade que algum tempo atrás (embora ainda seja bem pouca). A minha aceitação me deixa mais leve em relação a mim mesmo, não ligo muito pro que as pessoas pensam sobre mim.”

Depois de conversar com eles e acertar os detalhes, recorremos às marcas de parceiros, como a Kurwa Shop, Velvet Underwear, BicyCo., Holls e ao brechó Fermin Cacarecos pra montar looks para representar nossos modelos como eles são. As fotos correram numa naturalidade espantosa debaixo de um sol de surpreendentes 30º C em plena capital paranaense.

O dia foi realmente diferente do que é comum nessa cidade cinza.

Sobre as fotos, sobre ser negro e o meio em que vivemos, Luan também se manifesta:

“Ocupar espaços, nas rodas que fui, essa sempre foi a pauta principal. O que sempre me chamou a atenção, porque em todos os lados que olho vejo pessoas, pessoas iguais, mas não iguais a mim. Ou pessoas iguais, mas que não se aceitam como iguais.

No trabalho a representação, poucas as vezes os cabeças. Sempre algo, às vezes algo que limitante. Em uma marca, costura, atendimento, modelo. Estilista? Na empresa, porteiro, gerente, tios. Dono?

Onde estamos em meio a isso tudo?”

Confira o resultado:

Editorial: O Que é Ser Negro?

Modelos: Adrielly Oliveira e Lucas Bueno
Fotos: Alice Maneschy
Direção: Luan Carfran
Produção: Luan Carfran e Alice Maneschy

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